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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Liturgia Dominical - 14/08/2011


20º DTC - Ano A - Dia 14/08/2011 - Cor: Verde

Primeira Leitura: Aos estrangeiros eu conduzirei ao meu monte santo
Leitura da Profecia de Isaías 56,1.6-7: 1 Isto diz o Senhor: "Cumpri o dever e praticai a justiça, minha salvação está prestes a chegar e minha justiça não tardará a manifestar-se. 6 Aos estrangeiros que aderem ao Senhor, prestando-lhe culto, honrando o nome do Senhor, servindo-o como servos seus, a todos os que observam o sábado e não o profanam, e aos que mantém aliança comigo, 7 a esses conduzirei ao meu santo monte e os alegrarei em minha casa de oração; aceitarei com agrado em meu altar seus holocaustos e vítimas, pois minha casa será chamada casa de oração para todos os povos". Palavra do Senhor! - Graças à Deus!

Comentário: Novo céu e nova terra
O exílio mostrou que Deus não está ligado exclusivamente a uma terra e nação. Doravante, o povo de Deus está aberto aos pagãos, desde que aceitem viver segundo a justiça e o direito. Essa abertura ultrapassa as restrições previstas pela Lei (Dt 23,2-9) e começa a quebrar um nacionalismo fechado.

Salmo Responsorial - 66(67),2-3.5.6 e 8 (R. 4)
R. Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor, que todas as nações vos glorifiquem!
2 Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção, e sua face resplandeça sobre nós! 3 Que na terra se conheça o seu caminho e a sua salvação por entre os povos. (R)
5 Exulte de alegria a terra inteira, pois julgais o universo com justiça; os povos governais com retidão, e guiais, em toda a terra, as nações. (R)
6 Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor, que todas as nações vos glorifiquem! 8 Que o Senhor e nosso Deus nos abençoe, e o respeitem os confins de toda a terra! (R)

Comentário: Deus abençoa a terra do seu povo
Oração de agradecimento por ocasião da festa da Colheita
Colheita abundante é sinal da bênção de Deus, Senhor da vida, para o seu povo aliado. O fato se torna anúncio para todas as nações reconhecerem que o Deus verdadeiro é também o Senhor da história. Ele governa as nações para que a justiça aconteça não só dentro de um povo, mas também nas relações entre os povos. É através da justiça que todos poderão usufruir da colheita e, portanto, da bênção de Deus.

Segunda Leitura: O dom e o chamado de Deus a Israel são irrevogáveis
Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos 11,13-15.29-32: Irmãos: 13 A vós, cristãos vindos do paganismo, eu digo: enquanto eu for apóstolo dos pagãos, honrarei o meu ministério, 14 na esperança de despertar ciúme nos da minha raça e, assim, salvar alguns deles. 15 Se a rejeição deles foi reconciliação para o mundo, o que não será a admissão deles! Será como passagem da morte para a vida! 29 Pois os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. 30 Outrora, vós fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia, em consequência da desobediência deles. 31 Assim são eles agora os desobedientes, para que, em consequência da misericórdia usada convosco, alcancem finalmente misericórdia. 32 Com efeito, Deus encerrou todos os homens na desobediência, a fim de exercer misericórdia para com todos. Palavra do Senhor! - Graças à Deus!

Comentário: Israel e a salvação dos pagãos
Mal acolhido por grande parte de Israel, o Evangelho pode ser anunciado aos pagãos, e assim a Igreja se liberta do regime judaico. Esse fato deveria provocar o ciúme de Israel e chamar a sua atenção para Cristo. Paulo espera e entrevê a conversão de Israel como uma ressurreição. O povo de Israel não foi rejeitado para sempre, porque Deus não volta atrás em sua escolha. O futuro da salvação permanece aberto ao povo da promessa. Através de uma história misteriosa, o Senhor continua a guiá-lo, para mostrar a todos que ele salva porque ama, pois a sua misericórdia é dirigida a todos.

Aclamação ao Evangelho Mt 4,23
R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.
V. Jesus Cristo pregava o Evangelho, a boa notíca do Reino; e curava seu povo doente de todos os males, sua gente!     (R)

Evangelho: Mulher, grande é a tua fé!
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 15,21-28: Naquele tempo, 21 Jesus retirou-se para a região de Tiro e Sidônia. 22 Eis que uma mulher cananéia, vindo daquela região, pôs se a gritar: "Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!" 23 Mas Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Então seus discípulos aproximaram-se e lhe pediram: "Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós". 24 Jesus respondeu: "Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel". 25 Mas a mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus e começou a implorar: "Senhor, socorre-me!" 26 Jesus lhe disse: "Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos". 27 A mulher insistiu: "É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!" 28 Diante disso, Jesus lhe disse: "Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!" E desde aquele momento sua filha ficou curada. Palavra da Salvação! - Glória a Vós, Senhor!

Comentário: Quem são as ovelhas perdidas?
A salvação trazida por Jesus não é privilégio de um povo determinado, mas é para todos os que acreditam nele e na sua missão, mesmo que sejam considerados como cães, isto é, estrangeiros. Não é mais a raça e o sangue que unem as pessoas a Deus, mas a fé em Jesus e no mundo novo e transformado que ele desperta. A mulher pagã reconhece que Jesus não é só uma personalidade moral e religiosa, mas alguém que realiza um projeto concreto: constituir o povo de Deus na história. Esse reconhecimento faz que ela participe, com sua filha, desse projeto. Não são os atos de purificação ou as crenças particulares que engajam alguém no povo de Deus, mas o fato de acreditar que Jesus é o guia desse povo. O encontro com a mulher pagã, como que obrigou Jesus a alargar as dimensões de sua missão. No diálogo tenso com a mulher cananéia, ele deu a entender que os destinatários de sua missão era o estreito grupo das "ovelhas perdidas da casa de Israel". Sua salvação tinha um destino certo: única e exclusivamente, o povo judeu, povo da predileção divina com o qual Deus havia feito uma aliança. Esta predileção levou à idéia do exclusivismo: só Israel seria objeto da salvação. Jesus também pensava assim. A cananéia convenceu-o com um argumento irrefutável: se aos filhos é reservado o pão, pelo menos sobram as migalhas para os cachorrinhos. Nem se importou de comparar-se aos cachorrinhos, à espreita de um pedacinho de pão caído da mesa de seu dono. Existia fé maior do que esta? Este incidente bastou para que Jesus tomasse consciência de que existem muitas ovelhas perdidas, fora da casa de Israel. Assim como viera para os de Israel, era mister acolher indistintamente a quantos dele se aproximavam. Ovelha perdida era qualquer pessoa carente de ajuda, que não tinha com quem contar; era o povo abandonado, expoliado e explorado, largado à mercê dos prepotentes; era o povo marginalizado, sem distinção de raça. Jesus compreendeu que tinha sido enviado para todos. Que os discípulos aprendessem esta lição e deixassem de lado seus preconceitos. Mateus retoma aqui uma narrativa do evangelho de Marcos, dando-lhe um sentido diferente. Em Marcos a característica dominante é a evangelização dos gentios. A Boa-Nova de Jesus é: sua presença na região de Tiro e Sidônia, um território execrado pelos judeus; sua acolhida em uma casa de gentios, algo inadmissível no judaísmo; e a libertação da filha da cananéia do espírito excludente da tradição da Lei. Já Mateus orienta a narrativa para o caráter davídico de Jesus e realça a primazia do anúncio "às ovelhas perdidas da casa de Israel". Mateus escreve para uma comunidade formada por cristãos convertidos do judaísmo. Acomodando a novidade de Jesus com a tradição da comunidade, procura induzi-los ao acolhimento das comunidades de discípulos do mundo gentílico.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Liturgi Dominical do 19º DTC - Ano A - 07/08/2011


19º DTC - Ano A - Dia 07/08/2011 - Cor: Verde

Primeira Leitura: Permanece sobre o monte na presença do Senhor
Leitura do Primeiro Livro dos Reis 19,9a.11-13ª: Naqueles dias, ao chegar a Horeb, o monte de Deus, 9a o profeta Elias entrou numa gruta, onde passou a noite. E eis que a palavra do Senhor lhe foi dirigida nestes termos: 11 "Sai e permanece sobre o monte diante do Senhor, porque o Senhor vai passar". Antes do Senhor, porém, veio um vento impetuoso e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos. Mas o Senhor não estava no vento. Depois do vento, houve um terremoto. Mas o Senhor não estava no terremoto. 12 Passado o terremoto, veio um fogo. Mas o Senhor não estava no fogo. E, depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. 13a Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. Palavra do Senhor! - Graças à Deus!

Comentário: Elias encontra-se com Deus de bondade e misericórdia
O profeta é perseguido quando desmascara aparências que encobrem uma política opressora. Ameaçado de morte, Elias foge. Sua fuga, porém, se transforma na busca da fonte original, que é a fé javista. O monte Horeb (Sinai), lugar da aliança com Deus, é o ponto de partida para se formar uma sociedade justa e fraterna. Nessa experiência do Deus libertador, o profeta descobre os próximos passos a dar: reunir as pessoas fiéis ao projeto de Deus, criar um novo quadro político, e providenciar um substituto para a sua missão.

Salmo Responsorial - 84(85),9ab-10.11-1213-14     (R. 8)
R. Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade, e a vossa salvação nos concedei!
9a Quero ouvir o que o Senhor irá falar: 9b é a paz que ele vai anunciar. 10 Está perto a salvação dos que o temem, e a glória habitará em nossa terra. (R)
11 A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão; 12 da terra brotará a fidelidade, e a justiça olhará dos altos céus. (R)
13 O Senhor nos dará tudo o que é bom, e a nossa terra nos dará suas colheitas; 14 a justiça andará na sua frente e a salvação há de seguir os passos seus. (R)

Comentário: Restaura-nos ó Deus!
Oração coletiva de súplica, logo após a volta do exílio
Ao chegar do exílio, o povo se defronta com graves dificuldades: organizar a comunidade, restabelecer o culto, reconstruir o Templo, sanar sérios problemas sociais. O plano de restauração, portanto, é ainda uma grande aspiração. A essa súplica responde um oráculo do sacerdote: Deus anuncia a paz, plenitude de condições de vida, se o povo se converter ao projeto dele. A glória ou presença de Deus volta à terra (cf. Ez 11,23 e 43,2), acompanhada pelo amor, fidelidade, justiça e paz que produzem prosperidade para todo o povo.

Segunda Leitura: Eu desejaria ser segregado em favor de meus irmãos
Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos 9,1-5: Irmãos: 1 Não estou mentindo, mas, em Cristo, digo a verdade, apoiado no testemunho do Espírito Santo e da minha consciência. 2 Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua, 3 a ponto de desejar ser eu mesmo segregado por Cristo em favor de meus irmãos, os de minha raça. 4 Eles são israelitas. A eles pertencem a filiação adotiva, a glória, as alianças, as leis, o culto, as promessas 5 e também os patriarcas. Deles é que descende, quanto à sua humanidade, Cristo, o qual está acima de todos, Deus bendito para sempre! Amém!   Palavra do Senhor! - Graças à Deus!

Comentário: A filiação adotiva
Nos capítulos 9-11, Paulo analisa a situação do povo de Israel, procurando responder à difícil questão: "Não é uma contradição o fato de que o próprio povo escolhido, portador da história da salvação, tenha rejeitado Jesus e se tenha excluído da salvação?" Esse problema encandalizava judeus e pagãos e comprometia o êxito do Evangelho.

Aclamação ao Evangelho Sl 129,5   
R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.
V. Eu confio em nosso Senhor, com fé, esperança e amor; eu espero em sua palavra, hosana, ó Senhor, vem, me salva!    (R)

Evangelho: Manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus Mt 14,22-33: Depois da multiplicação dos pães, 22 Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. 23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados e disseram: "E um fantasma". E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" 28 Então Pedro lhe disse: "Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água". 29 E Jesus respondeu: "Vem!" Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: "Senhor, salva-me!" 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: "Homem fraco na fé, por que duvidaste?" 32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. 33 Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: "Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!"  Palavra da Salvação! - Glória a Vós, Senhor!

Comentário: Por que duvidaste?
Sobressai aqui a figura de Pedro, protótipo da comunidade que, nas grandes crises, duvida da presença de Jesus em seu meio e, por isso, pede um sinal. E mesmo vendo sinais, continua com medo das ambigüidades da situação e, por isso, a sua fé fica paralisada. Então faz o seu pedido de socorro. Jesus atende ao pedido da comunidade. Mas deixa bem claro que ela precisa crescer na fé e não temer os passos dados dentro das águas agitadas do mundo. Jesus exerce sua missão em benefício de todo o povo, e não de acordo com os critérios e interesses de privilegiados ou especialistas da religião. Estes consideravam um escândalo deixar-se tocar pela multidão doente. A censura de Jesus a Pedro por ter duvidado estende-se também aos demais discípulos. Afinal, a fé pequena do líder expressava a situação do grupo inteiro. Como Pedro, os demais ainda não tinham chegado a consagrar-se inteiramente a Jesus, depositando nele uma confiança inabalável, mormente nos momentos de dificuldade. Daí o risco de serem tragados pelas ondas das perseguições e das adversidades. O simples fato de conviver com o Mestre era insuficiente para fazer a fé penetrar no coração dos discípulos. A adesão efetiva exigia muito mais. Não bastava deixar-se encantar pela sublimidade de seus ensinamentos nem se empolgar diante da grandiosidade de seus milagres. Era necessário deixar-se transformar por suas palavras, e descobrir, para além dos milagres, a identidade messiânica de Jesus e buscar imitar seu modo de proceder. Só assim a fé se torna consistente, capaz de superar as provações. Por outro lado, a censura de Jesus é um alerta para os líderes da comunidade. Também eles poderiam padecer de uma fé inconsistente, a ponto de correr o risco de sucumbir nos momentos de provação. Sendo severos com quem dava os primeiros passos da fé, deveriam ter suficiente humildade para reconhecer sua própria condição. Afinal, também eles poderiam vir a fracassar no seu testemunho de fé. Jesus manda os discípulos para o outro lado do mar, enquanto ele próprio despediria as multidões. O evangelho de João, na passagem paralela a esta, menciona que estas multidões queriam entronizar Jesus como rei. Nem os discípulos nem as multidões percebem a dimensão libertadora e a humildade da encarnação de Jesus. O messias esperado por muitos seria um líder poderoso que restauraria entre os judeus um reino glorioso, no modelo que a tradição criara para o antigo reinado de Davi, o que não condiz com a prática de Jesus. Marcos, em seu evangelho, ao apresentar a narrativa paralela a esta, realça a dificuldade dos discípulos em remarem contra o vento, bem como destaca a incompreensão destes discípulos diante da partilha dos pães. Marcos procura despertar o leitor quanto à própria identidade de Jesus. Em Mateus o destaque é o barco agitado pelas ondas e pelo vento. O "barco" simboliza a Igreja, já em processo de institucionalização na década de 80, quando Mateus escreve seu evangelho. Quando Jesus se aproxima, caminhando sobre as águas, Mateus narra também a caminhada de Pedro, que a tradição passou a cultuar como figura proeminente na Igreja. A vacilação de Pedro ao andar sobre as águas, entre a fé e a dúvida, induz as comunidades a compreenderem a importância de uma fé firme e decidida. Ao contrário do evangelho de Marcos, a narrativa, em Mateus, termina com a proclamação messiânica dos discípulos: "Verdadeiramente, tu és Filho de Deus". A afirmação do messianismo de Jesus é uma forte característica de Mateus. As comunidades de discípulos, ao longo da história, passam por tribulações sofrendo repressões. Pode-se chegar ao desânimo, com o sentimento de abandono por parte de Deus. Se assim acontecer, submerge-se no oceano do mundo dominado pelos poderes fundados sobre as riquezas acumuladas, que desprezam a vida dos pobres e pequeninos. Contudo Jesus está presente. Não há o que temer, pois Jesus é a fonte da vida e a luz para o nosso caminho, e é a força propulsora da nova criação, do mundo novo possível.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Liturgia do dia 03 de Agosto de 2011


Quarta-Feira da 18ª STC - Ano A - Dia 03/08/2011 - Cor: Verde

Primeira Leitura: Desprezaram uma terra de delícias
Leitura do Livro dos Números 13,1-2.25-14,1.26-30.34-35: Naqueles dias, 1 o Senhor falou a Moisés, no deserto de Fará, dizendo: 2a “Envia alguns homens para explorar a terra de Canaã, que vou dar aos filhos de Israel. Enviarás um homem de cada tribo, e que todos sejam chefes”. 25 Ao fim de quarenta dias, eles voltaram do reconhecimento do país, 26 e apresentaram-se a Moisés, a Aarão e a toda a comunidade dos filhos de Israel, em Cades, no deserto de Fará. E, falando a eles e a toda a comunidade, mostraram os frutos da terra, 27 e fizeram a sua narração, dizendo: "Entramos no país, ao qual nos enviastes, que de fato é uma terra onde corre leite e mel, como se pode reconhecer por estes frutos. 28 Porém, os habitantes são fortíssimos, e as cidades grandes e fortificadas. Vimos lá descendentes de Enac; 29 os amalecitas vivem no deserto do Negueb; os hititas, jebuseus e amorreus, nas montanhas; mas os cananeus, na costa marítima e ao longo do Jordão". 30 Entretanto Caleb, para acalmar o povo revoltado, que se levantava contra Moisés, disse: "Subamos e conquistemos a terra, pois somos capazes de fazê-lo". 31 Mas os homens que tinham ido com ele disseram: "Não podemos enfrentar esse povo, porque é mais forte do que nós". 32 E, diante dos filhos de Israel, começaram a difamar a terra que haviam explorado, dizendo: "A terra que fomos explorar é uma terra que devora os seus habitantes: o povo que ai vimos é de estatura extraordinária. 33 Lá vimos gigantes, filhos de Enac, da raça dos gigantes; comparados com eles parecíamos gafanhotos". 14,1 Então, toda a comunidade começou a gritar, e passou aquela noite chorando. 26 O Senhor falou a Moisés e Aarão, e disse: 27 "Até quando vai murmurar contra mim esta comunidade perversa? Eu ouvi as queixas dos filhos de Israel. 28 Dize-lhes, pois: 'Por minha vida, diz o Senhor, juro que vos farei assim como vos ouvi dizer! 29 Neste deserto ficarão estendidos os vossos cadáveres. Todos vós que fostes recenseados, da idade de vinte anos para cima, e que murmurastes contra mim, 30 não entrareis na terra na qual jurei, com mão levantada, fazer-vos habitar, exceto Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num. 34 Carregareis vossa culpa durante quarenta anos, que correspondem aos quarenta dias em que explorastes a terra, isto é, um ano para cada dia; e experimentareis a minha vingança. 35 Eu, o Senhor, assim como disse, assim o farei com toda essa comunidade perversa, que se insurgiu contra mim: nesta solidão será consumida e morrerá"'.  Palavra do Senhor! - Graças a Deus!

Comentário: Desprezaram uma terra de delícias
Chega o momento de se alcançar a “terra onde corre leite e mel (versículo 27), isto é, o ideal de todo um projeto de libertação. Aí, a análise da realidade (exploração do país) vai demonstrar que as coisas não são tão simples como se pode imaginar. Será preciso enfrentar os cananeus que dominam essa terra. Eles são fortes e parecem invencíveis (gigantes, cidades grandes e fortificadas). Então, o próprio objetivo a ser alcançado é minimizado ou falsificado: desprezar e denegrir o ideal é a maneira mais fácil de fugir da luta ou evitar que ela seja desencadeada. Sob a capa desse desprezo e fuga se esconde a covardia. No processo de libertação, as incertezas provocam uma série de tentações: voltar às seguranças concedidas e prometidas pelo opressor, desistir no meio da caminhada e renegar os verdadeiros líderes, esquecer as conquistas já conseguidas, queimar etapas para chegar mais depressa ao objetivo, desprezar o ideal da libertação, fazer separação entre a religião e os problemas concretos. Tudo isso faz com que o projeto se torne muito mais difícil e seja retardado por gerações inteiras. No deserto o povo é por demais inerte, não colabora com Deus, procede a seu modo e é infiel à aliança. É causador dos próprios males que, entretanto, imputa a Deus. A severa punição de Deus consiste simplesmente em deixá-los em sua inércia: aterrorizados com os espantalhos dos exploradores, não ousarão prosseguir viagem rumo à terra prometida e morrerão no deserto, até que surjam novas gerações, jovens, animosas, mas confiantes em Deus, que hão de colaborar em sua obra.“Ajuda-te que Deus te ajuda” é um provérbio sábio. É necessário confiar em Deus e agir: as duas coisas juntas, não uma sem a outra (cf. 1Cor 15,10). Muitas vezes, em face de situações graves, de provações, quereremos tornar atrás, resignados com pouco, a fim de não ter de enfrentar a luta. Contamos só com nossas forças e estas falham: tememos obstáculos e inimigos hipotéticos, e eis-nos bloqueados! Confiemos em Deus!

Salmo Responsorial - 105(106),6-7a.13-14.21-22.23   (R. 4a)
R. Lembrai-vos de nós, ó Senhor, segundo o amor para com vosso povo!
Ou: Aleluia, Aleluia, Aleluia.
6 Pecamos como outrora nossos pais, praticamos a maldade e fomos ímpios; 7a no Egito nossos pais não se importaram com os vossos admiráveis grandes feitos.    (R)
13 Mas bem depressa esqueceram suas obras, não confiaram nos projetos do Senhor. 14 No deserto deram largas à cobiça, na solidão eles tentaram o Senhor.  (R)
21 Esqueceram-se do Deus que os salvara, que fizera maravilhas no Egito; 22 no país de Cam fez tantas obras admiráveis, no mar Vermelho, tantas coisas assombrosas.   (R)
23 Até pensava em acabar com sua raça, não se tivesse Moisés, o seu eleito, interposto, intercedendo junto a ele, para impedir que sua ira os destruísse.   (R)

Comentário: A história testemunha a infidelidade do homem
Recordação da história em forma de súplica coletiva, usada talvez numa celebração penitencial pública. A história é considerada de forma pessimista, porque se leva em conta a infidelidade do povo, relembrada em sete pecados capitais
Este salmo tem eu seu começo, um estilo de hino, que dá logo lugar à súplica, na qual a geração presente se solidariza com as passadas, reconhecendo a própria responsabilidade nas infidelidades cometidas. Os versículos 19-23 é o quarto pecado: a idolatria, que não consiste apenas em adorar ídolos, mas principalmente em transformar Deus num ídolo, a fim de manipular com interesses egoístas (Ex 32). Em vez de seguir o projeto de Deus, o povo se deixou fascinar e contaminar com os projetos dos opressores. O pecado de servir a deuses estrangeiros é castigado com a escravidão. Apesar de todas as infidelidades do seu povo, Deus não o abandona. Quando este clama, ele está sempre pronto para o libertar.

Aclamação ao Evangelho Lc 7,16
R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.
V. Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo, aleluia.    (R)

Evangelho: Mulher, grande é a tua fé!
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 15,21-28: Naquele tempo, 21 Jesus retirou-se para a região de Tiro e Sidônia. 22 Eis que uma mulher cananéia, vindo daquela região, pôs se a gritar: "Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!" 23 Mas Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Então seus discípulos aproximaram-se e lhe pediram: "Manda embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós". 24 Jesus respondeu: "Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel". 25 Mas a mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus e começou a implorar: "Senhor, socorre-me!" 26 Jesus lhe disse: "Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos". 27 A mulher insistiu: "É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!" 28 Diante disso, Jesus lhe disse: "Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!" E desde aquele momento sua filha ficou curada.  Palavra da Salvação! - Glória a Vós, Senhor!

Comentário: Quem são as ovelhas perdidas?
A salvação trazida por Jesus não é privilégio de um povo determinado, mas é para todos os que acreditam nele e na sua missão, mesmo que sejam considerados como cães, isto é, estrangeiros. Não é mais a raça e o sangue que unem as pessoas a Deus, mas a fé em Jesus e no mundo novo e transformado que ele desperta. A mulher pagã reconhece que Jesus não é só uma personalidade moral e religiosa, mas alguém que realiza um projeto concreto: constituir o povo de Deus na história. Esse reconhecimento faz que ela participe, com sua filha, desse projeto. Não são os atos de purificação ou as crenças particulares que engajam alguém no povo de Deus, mas o fato de acreditar que Jesus é o guia desse povo. O encontro com a mulher pagã, como que obrigou Jesus a alargar as dimensões de sua missão. No diálogo tenso com a mulher cananéia, ele deu a entender que os destinatários de sua missão era o estreito grupo das "ovelhas perdidas da casa de Israel". Sua salvação tinha um destino certo: única e exclusivamente, o povo judeu, povo da predileção divina com o qual Deus havia feito uma aliança. Esta predileção levou à idéia do exclusivismo: só Israel seria objeto da salvação. Jesus também pensava assim. A cananéia convenceu-o com um argumento irrefutável: se aos filhos é reservado o pão, pelo menos sobram as migalhas para os cachorrinhos. Nem se importou de comparar-se aos cachorrinhos, à espreita de um pedacinho de pão caído da mesa de seu dono. Existia fé maior do que esta? Este incidente bastou para que Jesus tomasse consciência de que existem muitas ovelhas perdidas, fora da casa de Israel. Assim como viera para os de Israel, era mister acolher indistintamente a quantos dele se aproximavam. Ovelha perdida era qualquer pessoa carente de ajuda, que não tinha com quem contar; era o povo abandonado, expoliado e explorado, largado à mercê dos prepotentes; era o povo marginalizado, sem distinção de raça. Jesus compreendeu que tinha sido enviado para todos. Que os discípulos aprendessem esta lição e deixassem de lado seus preconceitos. Mateus retoma aqui uma narrativa do evangelho de Marcos, dando-lhe um sentido diferente. Em Marcos a característica dominante é a evangelização dos gentios. A Boa-Nova de Jesus é: sua presença na região de Tiro e Sidônia, um território execrado pelos judeus; sua acolhida em uma casa de gentios, algo inadmissível no judaísmo; e a libertação da filha da cananéia do espírito excludente da tradição da Lei. Já Mateus orienta a narrativa para o caráter davídico de Jesus e realça a primazia do anúncio "às ovelhas perdidas da casa de Israel". Mateus escreve para uma comunidade formada por cristãos convertidos do judaísmo. Acomodando a novidade de Jesus com a tradição da comunidade, procura induzi-los ao acolhimento das comunidades de discípulos do mundo gentílico.